Ao escrever o livro “Por uma Arquitetura”, no início dos anos 20, Le Corbusier cria um verdadeiro manifesto que analisa os rumos da arquitetura de sua época trabalhando em defesa do movimento moderno. É importante destacar que no século XIX, após a revolução industrial, houve uma mudança muito grande na consciência da sociedade, com o retorno ao valor do indivíduo através do pensamento historicista que retomava aos valores medievais. Isso só foi possível graças aos novos conhecimentos científicos como estética, história, sociologia e arqueologia, que fizeram como que as sociedades buscassem uma identidade própria se espelhando no passado, daí o surgimento dos revivals: neogótigo, neoclássico, neoromântico, entre outros. Simultaneamente, as cidades com estruturas medievais, recebendo seis vezes a população que já tinham, começavam a apresentar problemas estruturais.

Com uma linguagem espirituosa, revoltosa e desbocada, que é própria do modernismo, o autor, invariavelmente faz críticas à arquitetura produzida na época, questionando sua aplicabilidade e adequação às novas necessidades humanas. Estruturado em sete capítulos, “Estética do Engenheiro, Arquitetura”, “Três lembretes aos senhores arquitetos”, “Os traçados reguladores”, “Olhos que não vêem”, “Arquitetura”, “Casas em série” e por fim “Arquitetura ou Revolução”, o livro propõe um debate acerca da arquitetura moderna, seus princípios e teorias.

No primeiro capítulo, o autor expõe, de maneira irônica, a situação em que a arquitetura encontrava-se na Europa do início do século XX. Para Corbusier, enquanto a engenharia – guiada por cálculos – encontrava-se em pleno desenvolvimento, acompanhando as demandas de sua época, a arquitetura – guiada por formas – continuava presa aos estilos, produzindo velhas casa, sem encontrar conceitos e fórmulas para se desenvolver; em regressão. Segundo o autor, aquelas velhas casas eram imorais e não atendiam as necessidades do homem moderno, tornando-o infeliz, sedentário. Complementando:

“Os engenheiros são viris e saudáveis, úteis e ativos, morais e alegres. Os arquitetos são desencantados e desocupados, faladores e lúgubres. É que em breve não terão mais nada a fazer. Não temos mais dinheiro para construir monumentos históriocos. Precisamos nos justificar.”

(página 6)

Em “Três lembretes aos senhores arquitetos”, no primeiro lembrete (“O Volume”), o autor exemplifica obras que têm como formas principais, as primárias, afirmando que são as mais belas foi conseguimos distingui-las facilmente através do jogo de luz e sombra. Logo em seguida trata do segundo lembrete, “A Superfície”: para o autor os traçados geométricos deveriam ordenar a composição das superfícies – fachadas –, fato ignorado pela grande maioria dos arquitetos da época. Elas deveriam ter vida própria, fazendo revelar a beleza do volume e não destruí-la, como fazia-se na época, como “buracos” de portas e janelas. Mais uma vez, segundo Corbusier, os engenheiros foram os pioneiros dessa revolução com a construção das fábricas que, pensando exclusivamente na necessidade de um programa, produziram simples formas geométricas, consideradas pelo autor, “primícias reconfortantes dos novos tempos” (página 24). Por fim, aborda a questão da planta, geradora dos volumes e superfícies, tanto da arquitetura quanto do urbanismo. E explica: “Toda a estrutura se eleva da base e se desenvolve conforme uma regra que está escrita sobre o solo na planta” (página 27). Cita como exemplo o arquiteto Auguste Perret que, através da utilização da inovadora técnica do concreto armado, pôde trabalhar a planta e assim a correta distribuição das funções de um edifício em seus pavimentos e mais adiante da cidade em seus bairros.

No capítulo “Os Traçados Reguladores”, Le Corbusier trata da relação de escala entre o espaço e o homem, chamada de ordem da arquitetura moderna:

“Medindo, ele estabeleceu a ordem. Para medir, tomou sua passo, seu pé, seu cotovelo ou seu dedo. Impondo a ordem com seu pé ou seu braço, criou um módulo que regula toda a obra; e esta obra está em sua escala, em sua conveniência, em seu bem-estar, em sua medida. Está na escala humana. Ele se harmoniza com ela; isso é o principal.”

(páginas 43 e 44)

Em “Olhos que não vêem”, Le Corbusier expõe o problema da habitação, utilizando os meios de transportes modernos (o transatlântico, o avião e o automóvel) e os objetos do dia-a-dia para exemplificar como deveriam ser as novas casas: verdadeiras “máquinas de morar” – belas, econômica, passíveis de serem produzidas em massa e livres dos estilos, que, segundo o autor, são as mentiras que sufocam a arquitetura e principalmente funcionais. Explica: as canetas servem para escrever, então são máquinas de escrever; as poltronas servem para se sentar, então são máquinas de sentar. Ou seja, nada que não seja funcionalmente necessário numa casa deveria ser usado, é supérfluo, é falso; Pra quê se fazer uma parede espessa se podemos utilizar delgadas placas de vidros para se fechar cinqüenta andares? Segundo o autor, isso ainda não era visto por seus contemporâneos, então, constrói um manual da habitação que explica com exatidão todos os detalhes que uma casa deve ter.

No capítulo “Arquitetura”, Le Corbusier deixa claro o seu radicalismo ao falar da arquitetura Romana e retoma o tema da planta baixa, agora, relatando como as funções do espaço que ela ordena (segundo o próprio autor) configuram a fachada; se a primeira é bem feita, a arquitetura será bem sucedida.

Finalmente, o conteúdo de “Casas em Série” arremata as idéias do autor. Fala-se da crise, da revolução, da guerra e como a casa se relaciona com esse novo estilo de vida. Conceber, construir e morar em casas em séries é um estado de espírito que temos que nos adaptar.

Ao longo do desenvolvimento do livro o autor se utiliza de outros argumentos para defender o modernismo. Nas máquinas, ele busca a inspiração para as casas em série; na geometria, a ordenação das cidades; na Roma clássica ele busca um suporte teórico para o seu modernismo. Constantemente Le Corbusier enaltece a engenharia, o que justifica talvez o fato de ter sido chamado de “engenheiro sujo” nos anos 20, fato que ele comenta ironicamente no prefácio. Já no último capítulo, depois de esgotados todos os seus argumentos em defesa do modernismo ele clama: “Arquitetura ou Revolução”, dando a entender que a reforma na arquitetura não poderia esperar mais. Os novos tempos exigiam que os arquitetos tomassem o problema da habitação em mãos e realizassem a transformação. Era o único meio possível de salvar a arquitetura do historicismo.

“Por uma Arquitetura” é um manifesto em defesa da arquitetura moderna, escrito não apenas para o público leigo ou para o leitor instruído mas, principalmente, para os contemporâneos de Le Corbusier, arquitetos do início do século XX, e por isso as idéias do autor são freqüentemente radicais, quase combativas. Muitas críticas foram feitas ao modernismo de Corbusier, especialmente na geração seguinte: críticas à padronização extrema das construções que eliminava a individualidade; ao seu conceito de cidade que, segundo alguns, falhou ao atribuir uma importância demasiada ao uso do carro e ao seu radicalismo em relação aos estilos anteriores.

Espero que tenham gostado,  até o próximo post,