“Quando escuto falar sobre o progresso das ciências, lembro sempre que é na base da intuição que elas dão o salto criativo capaz de abrir um novo e inesperado caminho. Se examinarmos a atuação de Jaime Lerner no campo do urbanismo, vamos sentir como a intuição o tem levado às modificações urbanísticas que conferiram a Curitiba características completamente diferentes das outras capitais do nosso país. É claro que para tanto influíram os conhecimentos urbanísticos indispensáveis, mas que, a meu ver, teriam sido insuficientes se lhe houvessem faltado o talento e a intuição a que me referi. O caso do novo Museu do Paraná serve de exemplo. Foi graças à sua sensibilidade que surgiu a idéia de transformar aquela escola tão antiga nesse museu que marca uma nova etapa da vida cultural da cidade. Por tudo isso recomendo a leitura deste livro, onde os problemas do urbanismo e da sociedade se entrelaçam de uma forma inteligente e atualizada.”

Os

 

car Niemeyer.

Disponível em www.saraiva.com.br

Jaime Lerner, três vezes prefeito de Curitiba, duas vez

 

es governador do Paraná e arquiteto urbanista foi o responsável pela grande transformação que a cidade de Curitiba sofreu na década de 70. O livro “Acupuntura Urbana” aborda problemas do urbanismo e da sociedade de uma forma inteligente e atualizada, mostrando suas idéias a respeito da dinâmica urbana. O livro surgiu da constatação de que muitas das transformações importantes na vida das cidades acontecem por uma ação específica, sem precisar interferir radicalmente no traçado e no planejamento, melhorando a cidade sem a necessidade de grandes obras. Jaime Lerner procura provocar as pessoas a entenderem e planejaram suas próprias cidades.

“Qualquer cidade no mundo pode apresentar melhorias significativas em menos de dois anos. Não importa a escala, nem a dificuldade de recursos, é possível se montar uma boa equação de co-responsabilidade”

Entrevista ao site Eco Desenvolvimento.org

Assim como a milenar terapia chinesa da acupuntura, Lerner prefere investir em intervenções pontuais no tecido urbano para sanar a dor de forma instantânea, eficaz e funcional. Para ele, as vezes é necessário que se tome atitudes pontuais – agulhadas – boas ações locais, assim como a acupuntura  que cria um nova energia. Ele acredita que mudanças na realidade urbana podem ser feitas em horas: Foi o caso da rua 15 de Novembro, em 1972, transformada em área para pedestres em apenas 72 horas. As mudanças têm de ser rápidas. Inovar é começar”, diz, em entrevista ao site Eco Desenvolvimento.org.

A acupuntura pode ser feita através de um obra, como foi com o Centro Pompidou, em Paris, por um complemento da obra, que ele chama de toque de genialidade, pela gentileza urbana, pela música ou até mesmo pela transformação de hábitos e costumes. Mas, sobretudo, o sistema de transporte também gera uma boa acupuntura urbana.

O objetivo principal da acupuntura urbana, segundo o autor, é promover a manutenção ou o resgate da identidade cultural de um local ou de uma comunidade. Segundo ele, “Uma boa acupuntura é ajudar a trazer gente para a rua, criar pontos de encontro, fazer com que cada função urbana catalise bem o encontro entre as pessoas” pág 47.

Para explicar melhor, Lerner relaciona a cidade, a fotografia de família e o cinema, sob o ponto de vista da identidade e da memória: a cidade é o ultimo refugio da solidariedade; é onde estão as respostas dos problemas das pessoas, é um sonho coletivo:

“se formos generosos com as nossas cidades, seremos com as pessoas. O homem não sonha simplesmente em ter as coisas certinhas, pensa em ser reconhecido no seu bairro, ter um sentimento de identidade com relação a cidade, de pertencer à cidade (…) a cidade é como um retrato de família: você não rasga uma foto porque não gosta do nariz de um tio, porque o retrato é de você mesmo.”

Entrevista ao site Eco Desenvolvimento.org

O autor cita os carros, como principal objeto transformador/destruidor das cidades. Temos como exemplo a cidade de Pequim: “um acampamento de prédios moderníssimos, cercados de estruturas viárias enormes, freeways e os conceitos antigos de anéis, radiais, etc. (…) É uma cidade rodoviária.” pag 19. Apresenta ainda a solução:

“Pequim precisa de uma acumpultura para voltar a ocupar o lugar de destaque que merece no mundo. Menos rodovias, mais cidade, mais gente, mais bicicletas. Talvez esta seja a acumpultura necessária. Trazer de volta o ônibus e a rua. Marcar a paisagem com suas estações.” pag 20.

A “Acupuntura no pulso do relógio”, citado pelo autor, consiste em conciliar diversos setores da sociedade, como o comércio informal e o formal. Se, após o encerramento do horário comercial – formal – houvesse a liberação do comércio informal, este daria vida ao local que, antes, estaria vazio.

Já a gentileza urbana, nada mais é do que uma acupuntura, não somente urbana – opinião própria. São gestos mínimos, que qualquer pessoa pode realizar, mas que têm uma enorme capacidade de melhor a vida, ou mesmo um breve momento da vida de outras pessoas; geram alegria, paz, felicidade…

Quando o autor fala da acupuntura pela música, se refere àquelas que assumem a identidade de uma cidade ou de um país, e que, quando tocam, desenham o espaço para o ouvinte. Como exemplo, Antônio Carlos Jobim para o Rio de Janeiro, Milton Nascimento para Minas Gerais, entre outros.

A multifuncionalidade aparece também como um tema muito importante no livro. Um espaço, para ser vivo deve ser contínuo, ou seja, não deve ter brechas ou vazios. Por exemplo, uma sequência de lotes baldios promove um vazio na região, que se torna sem função, portanto sem gente, sem uso, sem vida… uma lacuna. O preenchimento desses espaços seria uma acupuntura. Da mesma forma, se existe uma área onde só existe uma atividade econômica, mas falta gente, deve-se criar moradia, pois elas irão preencher essa brecha.

Ao falar sobre sistema de transporte, o autor deixa clara a sua certeza de que o transporte do futuro é o de superfície. Os Smart car, bus, bike e taxi são aqueles que, de alguma forma, estão limitados em seus espaços, como máximo aproveitamento. O único que pode usar tudo é o Smart pedestrian.

Acupuntura urbana somada à solidariedade foi uma solução dada à cidade de Curitiba. Com o objetivo de levar infra-estrutura e resolver problemas com o lixo acumulado nas áreas onde a população marginalizada vivia, há 13 anos a cidade implantou um sistema de compra do lixo, ou troca por vale-transporte. Para tanto, a participação da sociedade é fundamental e diversos outros acordos foram firmados, como: os moradores não poderiam mexer nos terrenos e, em troca, toda a infra-estrutura de água, luz e esgoto passariam pelas escadarias e as indústrias e serviços que contratassem moradores das favelas, estariam livres de impostos.

Mas, como melhorar uma cidade se você nem mesmo a conhece? Se a população não conhece a cidade onde vive, como saberá quais são suas deficiências e qualidades? Jaime Lerner, como prefeito de Curitiba, iniciou uma campanha, que perguntava às crianças: “Afinal, você conhece o rio que passa perto da sua casa?”. Dessa forma, ao relacionar o rio com suas casas, as crianças passariam a preservá-lo.

Nas páginas 61 e 62 o autor cita alguns instrumentos para fazer uma boa acupuntura urbana:

  • “Não esquecer que a cidade é o cenário do encontro”;
  • “É preciso globalizar a solidariedade”;
  • “Quanto mais você integrar as funções urbanas, quanto mais misturar renda, idade, mais humana a cidade ficará”;
  • Consolidar o transporte urbano;
  • “É preciso saber se relacionar com o automóvel, mas não ser escrevo dele”.

A seguir, outros itens importantes:

  • Criatividade é fundamental e, para isso, não pode haver preguiça;
  • A auto-estima de uma população faz a cidade avançar;
  • Iluminação como mecanismo de destaque de áreas específicas;
  • Aquapuntura: não virar as costas para os rios;
  • “Não permitir que carro, táxi, ônibus, sistemas de transporte de superfície e metrô compitam no mesmo itinerário”, afim de forçar as pessoas a usarem o automóvel adequadamente;
  • Motivar as pessoas a pensarem de maneira sustentável: separação do lixo orgânico do reciclável, usar menos o automóvel, poupar energia, entre outros;
  • Plantar árvores afim de gerar sombras: A campanha “Nós damos a sombra e vocês a água fresca”, mobilizou os moradores a regarem as plantas de suas calçadas para um projeto de arborização das vias, assim toda a população cuidou a cidade, plantando-se árvores em todas as ruas. Perceberam que era melhor salvar os bosques existentes do que construir novos parques e que as famílias deveriam cuidar desses lugares. Assim fizeram e o índice de área verde de Curitiba, em 1971, passou de 0,5 m2 de área verde/habitante para 52m2/hab e a população triplicou.

Espero que vocês tenham gostado, até o próximo post,