O texto de Evelyn Lima apresenta o trabalho de arquitetura cênica de Lina Bo Bardi em Salvador, nos anos de 1960, mostrando as formas que a arquiteta utilizou para estabelecer um diálogo entre os espectadores e os atores nas peças teatrais. Num panorama nacional marcado pelo autoritarismo e repressão, Edgard Santos, reitor da Universidade Federal da Bahia, percebeu o período era favorito a revelar a identidade cultural da Bahia e que a permanência de Lina Bo Bardi no Brasil seria de vital importância, uma vez que ela, junto com outros intelectuais, poderia promover a formação de novos artistas.

A principal proposta da arquiteta na execução de projetos cenográficos era estabelecer uma conexão dentro do teatro, excluindo limites e criando uma identificação por parte do público. Para isso, ela procurou utilizar objetos do cotidiano da cidade, como materiais artesanais e lixos encontrados nas ruas. Trabalhou de maneira surrealista deixando claro para o espectador, que ele estava num teatro. Um exemplo importante entre seus trabalhos, foi o projeto da peça “A Ópera dos três Tostões”, apresentado nas ruínas do Teatro Castro Alves. Lina Bo Bardi optou por deixar à mostra a própria estrutura do espetáculo, como os refletores de luz, as aparelhagens elétricas e musicais, além do próprio teatro, que havia sofrido um incêndio cinco dias antes de ser inaugurado, em 1958, e na ocasião apresentava-se praticamente em ruínas. Dessa forma, o espectador, em todos os momentos, tinha a consciência de estar assistindo a uma peça teatral, uma representação que dependia não só dos atores, mas a imaginação de cada um que estava lá dentro assistindo ao espetáculo. Da mesma forma, na peça “Calígula” foi utilizado cubos de madeira, tolhas de fibra nordestina e objetos diferenciados, todos com acabamento artesanal, como o objetivo do espectador se identificar com o que estava sendo visto.

Para a arquiteta era fundamental que o público interpretasse de maneira pessoal o que estava sendo representado ali e não recebesse de maneira gratuita um cenário industrializado, já que era contra a massificação típica da sociedade de consumo, como explica a autora do texto:

“O surreal se obtinha por meio de uma fácil identificação do público, a partir da exploração do inconsciente e do uso concomitante de elementos do artesanato local. Por meio da imaginação e dos elementos de que dispunha, buscados a arte popular, ou às vezes usando materiais como o lixo e os detritos encontrados na rua, a cenografia criticava a sociedade cada vez mais impregnada pelo vício do consumismo.”

LIMA, Evelyn (pag. 8)

Trabalhando dessa forma, Lina Bo Bardi aproximou a arte vernacular e as vanguardas e poetizou a arquitetura cênica. Como esperado, ela deu valor à vida através das artes, estabelecendo de uma vez por todas a identidade da cultura Baiana.